O que dizem os mortos de Piracaia – por Valter Cassalho

Pelos 200 anos da cidade de Piracaia, São Paulo

 

– Essa cova em que estás,

com palmos medida,

é a conta menor

que tiraste em vida.

– É de bom tamanho,

nem largo nem fundo,
deste latifúndio.

– Não é cova grande,

é cova medida,

é a terra que querias

ver dividida.

– É uma cova grande

para teu pouco defunto,

mas estarás mais ancho

que estavas no mundo.

– É uma cova grande

para teu defunto parco,

porém mais que no mundo

te sentirás largo.

Morte e Vida Severina – João Cabral de Melo Neto.

Segue abaixo um pequeno estudo sobre o que encontrei nos livros de óbitos da Igreja Matriz de Santo Antonio da Cachoeira em Piracaia, interior de São Paulo (Brasil).  O presente relato abrange um período entre  1830 (o primeiro livro dos arquivos) até 1891 ocasião da primeira Constituição da recém criada República Federativa do Brasil (15/11/1889),  passando assim o Estado a ser laico e  criando com isso o cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais, o qual passa a gerir os nascimentos, casamentos e óbitos. 

No período que abrange o presente estudo e anterior a este a morte tinha uma conotação muito forte, totalmente ligada a religião e administrada pela igreja. O morrer era algo público e compartilhado por toda a comunidade. 

Tanto em Portugal, como no Brasil Colônia e Império, enterrava-se a pessoa dentro da igreja, junto com a comunidade dos vivos, participando o falecido assim por dizer da vida comum de sua sociedade, estando em comunhão com esta, com seus santos e com Deus. 

Quanto mais perto do altar, mais próximo de Deus, e quanto mais próximo desses honrosos lugares mais importante era a pessoa em vida. Assim enterravam-se pelo chão da nave da igreja, junto a altares específicos, nas paredes e até no altar principal ou capelas das irmandades, já o  adro (fora da igreja) era para os escravos e gente menos qualificada. 

O prédio da igreja em si e seus arredores era um espaço sagrado, o seio da Santa Madre Igreja onde deveria descansar os restos mortais de seus filhos e encaminhar para Deus suas almas, para o destino final segundo seus merecimentos na Terra, enfim, o objetivo supremo era alcançar a Salvação e livrar-se do fogo do inferno ou dos tormentos do Purgatório. O rito fúnebre era um conforto a quem morria, bem como aos vivos que ainda permaneciam com suas saudades, tristezas e heranças por dividir. 

O mundo dos vivos e dos mortos estavam juntos, próximos e em comunhão. A extrema-unção,  o velório, o funeral, as missas pela alma do falecido, e todo o aparato da morte, muitas vezes de forma teatral, barroca, que beirava o espetáculo, fazia parte do morrer, do sentimento humano e da fé no século XIX.  

Analisei e registrei nesta pequena pesquisa a forma destes enterros, onde não se utilizava caixões de madeira, pois quase a  totalidade foi o corpo envolto em um pano. Possivelmente a paróquia tinha um único caixão, um esquife,  que era utilizado apenas para conduzir o cadáver até o sepulcro. Ali existia uma variedade cores e formas de suas mortalhas, que se desenrolam nas páginas seguintes. A preferida era a mortalha franciscana, geralmente e paradoxalmente vestia os mais abastados. No período do barroco brasileiro  São Francisco sempre detinha uma caveira a lembrar a brevidade da vida, a ineficácia das vaidades humanas e a certeza da morte. Vestes de outros santos como Nossa Senhora do Carmo também aparece, geralmente e curiosamente de moradores oriundos de Minas Gerais, onde a devoção a esta santa é comum.  

A forma e quantidade desses enterros demonstram que a primeira igreja a Santo Antonio, cuja povoação foi fundada em 16 de junho de 1817, não poderia ser tão pequena, quanto se pensa, tendo em vista a quantidade de altares citados nos enterramentos, irmandades e inúmeros enterros. 

O governo Imperial do Brasil, seguindo as normas sanitárias e costumes novos de outros países tentou várias vezes proibirem os enterramentos no interior das igrejas, o que levou décadas de proibições, acertos, inibições, propaganda e mudanças de hábitos.  Além do que, o sepultamento no interior das igrejas consistia em uma ótima renda para as paróquias, assim sendo, não só costumes e fé estavam em jogo, mas também a questão do lucro e manutenção das mesmas. 

Os médicos higienistas e suas crenças nos miasmas, combinado com as novas descobertas da medicina e aliado ao aumento considerável da população, pregavam abertamente o  uso de cemitérios fora das cidades e a céu aberto e não mais dentro das igrejas onde exalavam mau cheiro, espalhavam doenças e epidemias. Ao que parece até nosso sentido olfativo era cultural, pois imaginem o odor exalado pela decomposição de vários corpos mal cobertos no subsolo.  Leis das Câmaras Municipais, Leis Imperiais, Cartas Régias tentaram acabar com o costume, causando revoltas populares, não apenas no Brasil, mas também em países da Europa quando começaram os cemitérios serem administrados pelo governo laico e transferidos para fora das cidades, proibindo assim o enterro tal qual era antes.  No Brasil a revolta na Bahia, chamada de CEMITERADA (1836) foi talvez a mais famosa, onde a população se rebelou contra o governo e destruiu o novo cemitério.

Com o passar dos anos e muita insistência nos novos costumes e necessidades levaram os cadáveres para fora da nave da igreja, em cemitérios do lado de fora, mas ainda dentro das cidades e administrados pela Paróquia.  Somente com a expansão dos centros urbanos, necessidades de novos espaços e costumes, ligados a propaganda dos médicos e pulso firme dos governos, conseguiram finalmente colocar a cidade dos mortos para fora da cidade dos vivos, geralmente na saída ou entrada destas, com uma rua de fácil acesso, recebendo nomes como Rua da Saudade, Rua das Lágrimas, etc. Os cemitérios passaram para a administração municipal, as covas tornaram-se individuais e começaram os túmulos suntuosos externos, mais uma vez diferenciando as classes sociais. No entanto, o local foi considerado um campo santo, com uma capela em seu interior e uma profusão de cruzes e esculturas de santos continuando assim a questão do sagrado onde iria depositar o corpo e sua alma continuava a ser devidamente encomendada a Deus, com diversos ritos e manifestações de fé e homenagens ao morto. Porém, agora, administrada dentro do estado dito “laico” republicano, continuando a Igreja Católica Apostólica Romana direcionar a questão dos mortos, unindo a fé a crenças populares. Assim sendo, o Estado determinava os valores, locais, normas de enterramento, porém o velório, os ritos, com suas posições certas do defunto, orações, cores das mortalhas, banhos, quantidades de velas e purificações ficava a cargo da fé e das tradições locais.

O historiador piracaiense Antonio Ferreira de Almeida em seu livro “Historia do Município e Comarca de Piracaia editado em 1912, cita que:

Em 20 de setembro de 1830 foi benzido o corpo da Igreja e no dia vinte e cinco o primeiro cemitério, situado atrás  da igreja, onde actualmente se acha o prédio do revmo. Vigário padre Antonio Gonçalves de Oliveira. (ALMEIDA, 1912, p.13). Em 1875 benzeu-se também o cemitério de Nossa Senhora e S. Benedicto, cuja cerimonia foi presidida pelo vigário padre Antonio Gonçalves de Oliveira”.  (ALMEIDA, 1912, p.43)

Este último cemitério citado ficava nas proximidades da Igreja do Rosário.  Apesar de cemitérios havia a divisão clara do interior da igreja matriz e o adro diferenciando bem as classes.  Ambos os cemitérios foram demolidos no século seguinte e  foi construído no local (nas proximidades do atual Lar São Vicente de Paula) uma capela dedicada a São Miguel, que também foi demolida. Contam que futuras construções no local, bem como na Praça da Matriz em suas reformas, por vezes foram encontrados alguns ossos e estes foram encaminhados ao atual cemitério, bem longe do centro da cidade.  

O historiador Almeida continua suas citações :

“O número de enterros  actualmente é de 30 mais ou menos. O cemitério é novo na gestão do prefeito dr. Lafaette Valle em 1909.  O antigo cemitério será arrazado logo que finde o prazo determinado pelo regulamento sanitário. O administrador Amador de Oliveira Guimarães”. (ALMEIDA, 1912, p.135).

Nota-se a existência de um cemitério logo após da regulamentação da Igreja Matriz, porém, como se verá adiante, os enterramentos vão acontecer dentro da igreja.   Somente com o dito “regulamento sanitário” em 1909,  conseguem enfim tirar os dois cemitérios do centro da cidade e transferi-lo para longe. 

Mas continuando sobre os ditos óbitos, interessante perceber do que se morria.  Numa época sem antibióticos, de pouco conhecimento cirúrgico, sem recursos, morria-se dos mais variados acontecimentos e tragédias, uma expectativa de vida que ia pouco além dos quarenta anos. Nos óbitos aparecem como causa mortis: febre maligna,  lombrigas (em especial crianças), mal de Lázaro, morphea, moléstia interna, mordedura de cobra, mal de queima, bexiga, sarampo, hidropisia,  sarna recolhida e de “ar”, que segundo crença era uma congestão que entortava a boca ou rosto, na verdade nada mais seria do que um AVC menos comprometedor. O  “ar” segundo a crença popular poderia ser por reflexo do sol num espelho ou  água logo após a alimentação, portanto, comer e olhar no espelho ou ir para beira do rio não era recomendável. Muitas das causa mortis como não sabiam determinar, colocavam como “moléstia interna”. Outra coisa que chama atenção são os incidentes com cobras, várias mortes atribuídas a isso. Nesta época praticamente não se andava calçado, Piracaia possuía muito mato e uma fauna rica, o encontro com animais peçonhentos era uma constante, como é o caso do menino Joaquim de treze anos falecido em 17 de janeiro de 1854, “mordido de cobra”, meu pentavô materno teria o mesmo fim também, José Antonio de Oliveira,  faleceu em 05/01/1849 em Santo Antonio da Cachoeira, com mais ou menos 30 anos de idade, vítima de “mordedura de cobra”, foi sepultado dentro da matriz com hábito preto, deixou viúva Anna Joaquina e órfão meu tataravô Joaquim Alves de Souza aos seis anos de idade. Morrer de “mordedura de cobra” era muito triste; pois levavam o moribundo para a casa, geralmente carregado, chamavam curandeiros, benzedores, farmacêutico e caso existisse, um médico, colocavam toda sorte de coisas na ferida, de carvão moído a plantas medicinais, davam chás, rezavam orações especiais, enfim tudo o que estivesse ao alcance. Mas nada podiam fazer a não ser esperar o organismo reagir e torcer para que a quantidade de veneno não fosse tão alta, na maioria dos casos a pessoa agonizava em dores e febres e morria nas mãos de familiares, com a extrema unção do padre ou uma vela nas mãos para iluminar seu caminho. 

Nos óbitos pós 1870 há bastante referência quando a lepra (hanseníase), sempre citando após o nome da pessoa a palavra “morphetica”, diferenciando bem tais óbitos, pois além do sofrimento da moléstia, o doente sofria também com o preconceito da doença tão temida na Antiguidade. Há uma citação curiosa de 16/06/1875 – “AMBROSINA FLORIDO D´ANDRADE (MORPHÉTICA)   – Faleceu de um tiro Ambrosina Florido d´Andrade, solteira, de idade de trinta anos mais ou menos”. Este óbito  foi a primeira morte violenta de mulher nesta pesquisa, o que é bem raro nestes livros. Em registros anteriores citavam a causa da morte apenas como morphea, sem lançar logo após o nome da pessoa a palavra morfético o que começa a ocorrer pós 1870. 

Outra curiosidade foi o surto de sarampo ocorrido  em dezembro de 1889  a abril de 1890, pois  aparecem diversos casos de sarampo ceifando a vida de muitas crianças. Deve ter sido uma época bem difícil para este povo. 

MORTES VIOLENTAS 

Em 26/12/1832  em Curralinho “faleceu repentinamente de um tiro Joaquim, filho solteiro de Ignácio Pires,  de 18 anos  mais ou menos”. Ou em 10/06/1834 também no Curralinho (futura cidade de Joanópolis) o escravo Joaquim “faleceu repentinamente de um tiro e mais golpes, escravo de Manuel de Oliveira Matossinho, envolto em pano branco e sepultado no cemitério desta capela”. E ainda em 15/10/1835 – faleceu também no Curralinho, que deveria ser um bairro bem populoso, pelas várias menções que recebe, “repentinamente de uma foiçada Joaquim Francisco Gomes que teria 38 anos”.  Outras mortes repentinas são citadas justificando assim que faleceram sem os sacramentos, o que era coisa muito séria,  enquanto os doentes recebiam sacramento e unção, preparando para sua passagem a outra vida.  Em 26 de dezembro de 1846,  constam dois óbitos o de Antonio Assumpção residente em Rio Claro, com mais ou menos quarenta anos e Salvador Gomes de Moraes, morador da freguesia de Santo Antonio, ambos falecidos em virtude de tiro. Com certeza estavam envolvidos em alguma briga local. Em 04 de abril de 1856 faleceu de um tiro com vinte e cinco anos Lourenço Pinto Cardoso casado com Joana Pais, sepultado com pano preto. Pedro Correa Pinto, faleceu de um facada que levou na testa em 16/10/1875, com setenta anos.  Em 21 de novembro de 1887 foi assassinado Joaquim Batista com trinta anos, sepultado no cemitério da igreja, envolto em pano branco. Consta que Lourenço Pinto de Oliveira em 03 de março de 1888 de vinte e cinco anos, casado, foi assassinado por um tiro, sepultado envolto em pano branco. 

As contendas eram resolvidas da pior forma possível, pessoas novas sendo assassinadas numa época onde questão de honra, terras, heranças ou mesmo simples bebedeiras terminavam em homicídios. 

Além das mortes violentas, aconteciam tragédias, como o caso dos que faleceram de  queimaduras em dois de dezembro de 1880 João de Oliveira com sessenta anos e sua mulher Claudina Maria Joaquina com cinquenta anos e no dia 14 do mesmo mês faleceu aos vinte e dois anos João Antonio Lima, filho de Gabriel Joaquim de Oliveira também devido a queimaduras.  Seria algum acidente grave onde dois morreram na hora e um terceiro ainda durou alguns dias em sofrimento? 

OS NEGROS ESCRAVOS E LIBERTOS

O cerimonial entre brancos e negros libertos ou escravos eram bem parecidos, diferenciando o fato de serem sepultados fora da igreja. Consta em 16/2/1834 o falecimento da “preta liberta  JOANA PINTO, de sessenta anos, casada com Joaquim da Costa, faleceu com os sacramentos, sendo encomendada e sepultada em pano branco no cemitério da capela”.   Em 03 de novembro de 1845 consta que “faleceu João, natural da costa da África, liberto, mais ou menos vinte e quatro anos, moléstia interna, entregue pela Autoridade Competente o Tenente Coronel Francisco Lourenço Cintra, recebeu os sacramentos da extrema unção e sua alma foi encomendada e o corpo jaz no adro desta matriz”.  Existem livros só para escravos e nele constam como sepultados envoltos em panos brancos no cemitério da capela,  além do que percebe-se a morte de muitos adolescentes e muitas crianças vítimas de febres e lombrigas, tal qual os brancos.  Curioso que em 13/10/1850 faleceu José, de dois anos,  filho de Joaquim e Anna, escravos da abastada senhora Escolástica Maria de Ornellas, foi envolto em pano cor de rosa, sepultado no adro da matriz, o mesmo ocorre com outra escrava Benedicta de três anos, filha da  escrava Anna propriedade de Joaquim Pedro da Silva Freire. A cor de rosa era estendida também a algumas  crianças escravas tais como as brancas, por parte de donos mais generosos ou mais ricos. Em 03/04/1862 falece Escolástica de trinta anos, solteira, escrava de Luiz Antonio Figueiredo, foi sepultada com hábito franciscano no cemitério da vila, sendo que a grande maioria eram sepultados envolto em pano branco apenas. Devia com certeza ser merecedora desta homenagem ou possuir posses ou por caridade de seus donos, que eram ricos e influentes, tanto que Luiz Antonio Figueiredo foi um dos principais fundadores da futura cidade de Joanópolis (antigo bairro do Curralinho).  Percebe-se também pessoas como Domingos Leme (de Santo Antonio da Cachoeira) e o Capitão José Bonifácio Goncalves  (morador do bairro do Curralinho) como proprietários de vários escravos, dado ao número de óbitos destes, sempre citando seus donos. No hábito franciscano iria também Custódia em 19/03/1863, escrava de José Antonio de Oliveira Paes, bem como Ignácio em 08/11/1867 escravo com sessenta anos pertencente a José Antonio de Almeida Passos. Em 03/01/1868 faleceu de sarnas recolhidas Thereza com dois meses, escrava de Antonio José Gonçalves de Oliveira, seu corpo foi envolvo em pano azul.  Ser sepultado no hábito franciscano era para poucos. 

Há também um livro a parte datado de 1871 a 1888 destinado aos óbitos de FILHOS DAS ESCRAVAS, constam observações nos óbitos dos nascidos pós 1871 como libertos pela Lei de 28 de setembro de 1871 (Lei do Ventre Livre). Em 26 de abril de 1873 faleceu Theresa filha de Ephygenia escrava solteira de Manoel Jacintho Silveira Cintra, com um ano de idade mais ou menos, seu corpo foi envolto em pano “rubro vermelho”, encomendado e sepultado no cemitério da vila.  Assim como Manoel foi envolto em pano vermelho em 06 de julho bem como outros tantos em sua maioria foram no vermelho rubro, porém a partir de 1876 a mortalha branca volta a ser maioria novamente. Por exemplo, Belisário, falecido em 29/11/1873 filho de Theresa escrava solteira de João José Baptista Nogueira (bairro do Curralinho), de três anos de idade, sendo seu corpo vestido de branco e sepultado no cemitério da villa.  Curioso que mesmo moradores de bairros distantes, como o Curralinho (mais de três léguas de distância)  traziam seus escravos para receber a encomendação e serem sepultados. Geralmente tais filhos eram de escravas solteiras, pais incógnitos e a causa mortis eram vermes e febres, idades de até dois anos.  Valendo lembrar que viviam em condições sub-humanas com total falta de higiene.  Os maus tratos eram comuns na vida dos cativos. Consta que em 23/11/1869 “foi encontrado o cadáver de Cândido, enforcado, que teria vinte e cinco anos, solteiro, escravo de Antonio José Batista, foi envolto em mortalha branca, encomendado e sepultado no cemitério desta villa”. Apesar de possível suicídio recebeu todo o acompanhamento da morte.  Consta ainda que “faleceu de pancadas que recebeu LUIZA, natural da Costa, viúva, que teria cinquenta anos, escrava da viúva Esperança Maria de Jesus, seu corpo envolto em mortalha branca e sepultado no cemitério desta vila”. Aos 02 de agosto de 1879 faleceu assassinado por um tiro Thomé escravo de José Soares de Moura Cintra, do espólio do finado José Pinto Ferreira de Araujo, idade de vinte e oito anos mais ou menos, envolto em pano branco sepultado no cemitério desta vila. Nota-se aqui que o escravo era um objeto partilhável em herança, parte do espólio. 

Os escravos enquanto mortos recebiam melhor tratamento do que em vida. Afinal, uma alma de escravo penando pelo mundo não seria nada agradável e também não seria bom perante Deus deixar de prestar essa caridade de bem encomendar a alma ao Criador.  

Acreditava-se que podiam, tornar-se almas penadas os que morressem devendo, promessa a santo e dinheiro a vivos, os que ficassem insepultos, aqueles cuja família não pusesse luto e sobretudo os que partisem em circunstâncias trágicas, ou de repente, ou sozinho, sempre sem a devida assistência religiosa. (REIS, 1991, p.204).

Portanto, até mesmos os brancos corriam sério risco de ficarem errantes por este mundo.

O USO DO PRETO E AS MORTALHAS

A partir de 1844 começa a aparecer enterramentos com o uso de pano preto, como é o caso de Isabel Gois falecida em 20/04/1844, solteira, noventa anos, envolta em pano preto e sepultada no adro da igreja. Neste dia morreu também o português Manoel Ferreira Labido de vinte e dois anos, seu corpo envolto em pano preto, acompanhado pelo pároco e membros da Irmandade do Santíssimo Sacramento e do Rosário, foi sepultado no jazigo próprio da Irmandade do Santíssimo. Seguem-se décadas com o uso do pano preto, sepultados no interior da matriz, enquanto outros em pano branco eram sepultados no cemitério do lado de fora, as cores parecem bem denotar a escala social de cada um.  No entanto pelas décadas de 1880 em diante o preto desaparece, os sepultamento são feito somente no cemitério do lado de fora, os assentamentos dos óbitos se simplificam e todos com raras exceções são vestidos de branco e enterrados sem caixão, apenas amortalhados.  Uma das exceções é a morte de Antonio Gonçalves Pereira, ocorrido em 09 de  dezembro de 1887, vítima de loucura, com quarenta anos, casado com Julia Maria, sepultado vestido de preto.  Seria raiva? Nunca saberemos 

Vale aqui lembrar o uso do preto nas vestes dos que  ficavam. A viúva em especial cobria-se de preto, algumas pelo resto da vida e outras guardavam o luto de no mínimo um ano e somente depois do período do luto poderia retirar o preto para casar-se uma segunda vez.  Filhos e netos e parentes próximos deveriam guardar o luto também; nada de festas ou cores vistosas, afinal o luto fazia bem a alma, era o sinal de máximo respeito, principalmente entre os mais ricos esse costume era mais rígido e bem visto. 

Os sinos também tinham seu dobre especial anunciando a morte  e o cortejo muito das vezes era feito no chamado bangue, ou seja, um lençol ou rede traspassado por um bambu grosso e carregado nos ombros por homens que se revezavam.  Os velórios ocorriam dentro das casas dos falecidos, casas essas minúsculas em sua maioria, e o corpo ficava em repouso sobre alguma mesa da casa ou mesmo na cama; era lavado, vestido por amigos ou parentes, no caso de homens o trabalho era feito por homens, no caso de mulheres somente por mulheres, seguiam-se muitas orações e despedidas. Quando o velório acontecia a  noite, acendiam uma fogueira no quintal ou em frente a casa, onde ficavam bebendo desde cafés, chás, cachaça e muita prosa para esperar o dia. Não havia luz elétrica, tudo era iluminado com velas e lampiões a querosene, o que dava um aspecto muito lúgubre ao ato.  

Cabia as autoridades convocar homens para levar o morto para o destino final, caso houvesse pouca gente no enterro.  Era um ato de caridade bem reconhecido nestes casos, ajudar no último descanso.  A mortalha era feita por mulheres, que coziam logo uma roupa, uma túnica e segundo a tradição oral deveria ser costurada sem o arremate em nós, apenas no alinhavo, pois a crença popular dizia que os nós poderia segurar a alma junto ao corpo.  A agulha que costurou a mortalha era jogada no fogo, para nunca mais ser utilizada, em especial em atos de feitiçaria ou sortilégios, objeto esse muito cobiçado pelas feiticeiras. Para vestir o morto era necessário conversar com ele, falando ao seu ouvido: “Solta o braço fulano”,  “Solta a perna para eu te vestir”, etc;  a conversa segundo diziam  amolecia a rigidez cadavérica.  Lavado e vestido, por vezes amarravam um pano entre o queixo e topo da cabeça para a boca ficar bem fechada, no entanto na hora do enterro deveriam desamarrar, afinal não poderia haver nós. Se na hora do enterro o corpo ainda estivesse mole e a cabeça jogada para trás,  deveriam tirar a medida do morto com um barbante e colocar junto ao corpo, para evitar que ele levasse mais alguém da família em breve, ou apenas conversar com ele e pedir para partir em paz. Se a barriga começasse a inchar muito, era costume por uma chave em cima para diminuir o inchaço e evitar a saída de líquidos do corpo. Se os olhos insistissem em ficar meio aberto é que faltava alguém para ele ver antes da despedida final; caso não fechassem, a madrinha de batismo se ainda fosse viva poderia fechá-los. Se os pés estivessem muito abertos, em ângulo caídos para fora, ela sinal que mais pessoas morreriam logo, assim também era costume amarrá-los até a hora do enterro. Se chovesse na hora do enterro era sinal que o defunto sentiu muito a partida. Embrulhava-se o corpo, atava-se no bangue e seguia-se o enterro e em seguida era sepultado.  Esses eram alguns dos costumes que perduraram até os fins do século XX em nossa região.  

ILUSTRES FALECIDOS E SUAS DISPOSIÇÕES DE ÚLTIMA VONTADE 

Algumas pessoas  mortas nesta época, onde não havia carros ou bons meios de transporte e conservação de cadáveres, eram transportadas para outras localidades devido sua estirpe ou família e enterradas em igrejas mais antigas, irmandades e altares específicos, conforme suas disposições de última vontade. 

Um bom exemplo é o caso da fundadora de Piracaia, dona Leonor de Oliveira Franco, por disposição testamentária e pela sua estirpe, jus fazia que fosse sepultada em uma igreja  de maior destaque ou de seu nascimento, ou ainda o caso de Catarina Vaz de Lima em 29 de fevereiro de 1836, natural de Nazareth e que teria 90 anos, viúva, moradora do Curralinho e com autorização do pároco foi transferida para ser sepultada na matriz de Bragança Paulista com o hábito Franciscano.  

Um enterro interessante foi o de DELFINA MARIA DE OLIVEIRA, em 08/09/1844, faleceu de esturpor, viúva com idade entre 30 a 40 anos, residente no Curralinho, consta  “foi seo corpo acompanhado solenemente pelos sacerdotes presentes e de minha licença recomendado e sepultado na Matriz de Bragança em covagem da Irmandade do Santíssimo Sacramento onde era Irman”. Denota que era pessoa de posses e de importância, para ser acompanhada por mais de um sacerdote, até a cidade de Bragança, o que não era nada fácil naquela época. Na morte tudo tinha um preço, a roupa usada, as missas, o acompanhamento sacerdotal, etc. 

Como disse anteriormente a preocupação com a salvação da alma era uma constante, tanto que mesmo pessoas novas tendo posses faziam seus testamentos e procuravam ao menos nos últimos instantes da vida salvar-se do fogo do inferno.  No livro A MORTE É UMA FESTA há uma citação interessante que bem ilustra as situações que vão ocorrer abaixo:

“Como outros aspectos das cerimônias fúnebres, também as missas foram objeto de regulamentação pelas constituições primeiras em 1707. A função delas era abreviar o tempo passado no Purgatório, ou acrescentar à glória dos que já se encontravam no Paraíso. As missas fúnebres eram um aspecto importante da economia material e simbólica da Igreja, que recomendava enfaticamente a suas ovelhas que provassem sua devoção deixando em testamento quantas missas pudessem pagar. Aos herdeiros e testamenteiros dos que não pedissem missas a Igreja aconselhava que corrigissem a falta do morto a bem de sua alma. Aos párocos desses defuntos falecidos “ab intestato”  caberia pressionar as famílias enlutadas para que mandassem rezar pelo menos missas de corpo presente, de mês e de ano.  Quanto ao defunto pedia missas para eleger o templo de celebração, mandava o regulamento que elas acontecessem em sua igreja paroquial. No caso de não ter sido ali enterrado, metade dos sufrágios passaria para a igreja de sepultura, que, sendo a Santa Casa receberia todas. No caso de ter solicitado responsos sobre a sepultura, estes seriam feitos pelos padres responsáveis pela igreja onde jazia o morto. Fica claro nessas regras uma nítida noção de eficácia ritual ligado ao espaço;  sempre que possível missa e morto deviam estar no mesmo templo. Também aqui, o destino da alma se ligava ao destino do cadáver. (REIS, 1991, p.205).

Percebe-se isso através do falecimento de Ignacio Carvalho de Oliveira, ocorrido em 03 de setembro de 1844 – no qual está escrito: “faleceu com sacramento da extrema unção Ignacio Carvalho de Oliveira, de algumas facadas, natural de Bragança, e idade que teria de vinte e dous anos, fes testamento quanto ao Pio, declarou que por sua morte se difsesse duas missas de corpo presente por sua alma, e declarou o mais que queria que se difsesse mais vinte e cinco mifsas por sua alma, declarou mais que se desse esmolas aos pobres a quantia de trinta mil réis, declarou mais que deixava oito mil reis para  duas sobrinhas suas e declarou ultimamente que queria que seo corpo fofse envolto no hábito franciscano e dentro de hum caixão e tudo afsim se fes e foi acompanhado solenemente por mim o revdo Camilo Jose de Moraes Lellis e a Irmandade do Santifsimo Sacramento e jas sepultado dentro da matris”.  O caixão era um raridade na época, um luxo !

O testamento do mineiro Joaquim Ferreira Gonsalves  –  “Aos seis de março de mil oitocentos e quarenta e cinco, nesta matris de Santo Antonio com todos os sacramentos faleceu JOAQUIM FERREIRA GONSALVES, viúvo, natural da Freguesia de Baependi termo da Campanha, idade que teria cincoenta a sefsenta anos, mais ou menos, de moléstia interna, falleceo com testamento em o qual declarava quanto ao Pio o seguinte: Declarou que se difsesse missas de corpo presente por sua alma pelos sacerdotes que houvessem no lugar, e que seo corpo fosse envolto no hábito de Nossa Senhora do Carmo, honde era Irmão Proffano e que seria acompanhado pelo seo párocho, mais sacerdotes do lugar. Declarou que devia de Promeça uma ladainha com música a Nossa Senhora das Dores em sua capella na cidade de Campanha e que deixava des mil réis para a matris da cidade de Campanha subdúvida se já cumpriu ou não. Declarou mais que seu testamenteiro mandaria fazer huma coroa de prata lisa para Nossa Senhora Padroeira de Três Coraçons do Rio Verde. Declarou mais que seu testamenteiro mandaria diser por sua alma vinte e cinco missas e afsim mais des conforme sua tenção todas de esmolas do costume do lugar. Declarou mais que no dia do seo funeral distribuísse pelos pobres da Freguesia onde falecefse a quantia de quatro mil reis. Declarou mais que o remanescente de sua terça deixava para três filhas mais necessitadas a saber: Maria Rita, Maria Isabel e Joaquina. Nada mais declarou quanto ao Pio. Seo corpo foi envolto no hábito de Nossa Senhora do Carmo e acompanhado solenemente por mim reverendo Camillo José de Moraes Lellis que se achava presente e a Irmandade do Santíssimo Sacramento, sua Alma encomendada e jas sepultado dentro desta matris”. 

Curioso que em 02 de agosto de 1856 falece Miquelina Zeferina de São José, aos trinta e cinco anos, casada com Antonio Joaquim de Almeida, com o hábito de Nossa Senhora do Carmo, foi solenemente acompanhada por dois sacerdotes e sepultada no Consistório do Santíssimo Sacramento.   Pelo visto existia uma predileção entre os mineiros, do qual  esta santa é padroeira de muitas cidades de Minas Gerais, tanto que Iria Zeferina de São José de sessenta anos falece em 08 de abril de 1857, viúva, envolta no hábito de Nossa Senhora do Carmo.  Eram poucos o que usavam tal  hábito, ela foi sepultada no Cemitério desta Matriz; a partir daqui começam muitas menções sobre o CEMITÉRIO. Angela Maria de Morais falecida em 07 de fevereiro de 1862 foi envolta no habito de Santa Teresa e sepultada no cemitério da matriz.  Assim como Cândida Maria de Jesus, falecida em 27/04/1867 também optou pelo hábito de Santa Teresa, tinha trinta anos, faleceu de parto, era natural de Baependi. Começam assim os enterros a saírem de dentro da igreja e serem sepultados ao lado, no cemitério próprio da mesma. Os costumes vão mudando aos poucos. Nas décadas seguintes praticamente deixam de sepultar dentro da igreja, ficando apenas com esta opção os párocos locais. 

O óbito mais ilustre é o FALECIMENTO DE DONA LEONOR DE OLIVEIRA FRANCO, fundadora da cidade, conforme consta no livro de óbitos da igreja de Santo Antonio da Cachoeira em 1835. “Aos três de junho de mil oitocentos e trinta e cinco, no bairro da Capella faleceu com todos os sacramento LEONOR DE OLIVEIRA FRANCO, natural da freguesia de Nazareth, de idade de oitenta e quatro anos, viúva do falecido Capitam MANUEL MANÇO MACHADO, fes testamento, sobre o pio declarou que seo corpo fosse involto no hábito de São Francisco, acompanhado do Reverendo Párocho de Narazeth e mais sacerdotes que presentes se achassem, e de suas Irmandades a saber: da Irmandade do Santíssimo Sacramento, da do Rosário dos Crúsios e  da de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e sepultada acima das grades junto ao Altar de São José na matriz da Freguezia de Nossa  Senhora de Nazareth. Declarou mais que no dia do seo óbito,  à sepultura se dicefsem  mifsas de corpo presente por todos os sacerdotes que na ocasião se achafsem, a Esmolla Costumada de seiscentos e quarenta réis por cada hum; sendo este dia impedido, se dirão ao terceiro, septimo e trigésimo dias e que se cantafsem trez Mementos no acompanhamento do seo cadáver à sepultura pela sua Alma e nada mais declarou sobre o Pio.  Seo corpo foi envolto no hábito franciscano, recomendado e sepultado de minha licença na Matriz de Nazareth, de que faço este afsento que afsigno. O capelão Camillo Jose de Moraes Lelliz”. Mantive a grafia, em especial o costume de grafar o “ss” como “fs” entre outros. “Mementos” é uma das partes de preces do cânon da missa, neste caso o  Memento dos Mortos. Quem lavrou e assinou o óbito foi seu próprio neto, que era o padre e pároco na ocasião.  Ser sepultada acima das grades também era uma grande deferência. Consta também no livro de enterramentos de Nazareth onde foi sepultada, o assento de seu enterramento, a saber: “Aos doiz dias do mês de junho de mil oitocentos, trinta e cinco annos, na Capella Curada de Santo Antonio da Caxueira, desmembrada desta Matriz falleceu dona LEONOR DE OLIVEIRA FRANCO, viúva de Manoel Manso Machado, de idade de oitenta e quatro annos e por que diz por um seu testamento, que queria fosse o seo funeral feito na Matriz desta Freguesia, foi para a mesma condusido o seo cadáver no dia trez do sobredito mez de junho, foi envolto no hábito de São Francisco e acompanhado por mim unicamente por não haver mais sacerdotes,  Irmandade do Santíssimo Sacramento, S. do Rosário dos Crúsios  e da do Rosário dos Pretos”.  Confirma seu sepultamento junto ao altar de São José e foi dito pela mesma uma missa de corpo presente, conforme atestou o padre José Joaquim de Moraes. 

Outra ilustre personagem da história local MARIA ESCOLASTICA DE ORNELLAS, uma das famílias das mais antigas e tradicionais da região, ocorrido em 12 de fevereiro de 1851, consta como viúva, natural de Nazaré, com 63 anos de idade, quanto ao Pio declarou o seguinte: “Que deixa cem mil reis para ser aplicado nas obras desta matris de Santo Antonio e que deixa mais cem mil reis para adjutório da Igreja de Nossa Senhora do Rosário  desta  Freguesia e declarou mais que deixa doze mil e oitocentos reis a Nossa Senhora das Dores desta Matris e declarou mais que deixa trinta e quatro mil réis pra realizar trinta e quatro missas pela alma de seu filho Bento, disse mais que deixa cincoenta mil réis para missas por tenção de sua filha Generosa mulher de José Joaquim da Silva, declarou mais que deixa trinta e quatro mil réis para se diser trinta e quatro missas por sua alma, logo que falecer, mais nada declarou quanto ao Pio”. Seu corpo foi envolto no hábito franciscano e solenemente acompanhado por dois reverendos sacerdotes e sepultada dentro desta matriz. 

Os testamentos registrados no livro de óbitos são muito interessantes e retratam bem a preocupação com a partida do mundo material e era feito por pessoas de posses, pois os custos com missas, acompanhamentos e taxas não era nada barato, como é o caso do óbito de: ANNA JACINTA DE OLIVEIRA – “Aos dezefsete de janeiro de mil oitocentos e quarenta e trez, nesta Freguezia e bairro da Caxoeira Acima, falleceo com os sacramentos Anna Jacinta de Oliveira, natural de Nazareth, idade que teria setenta anos, mais ou menos, viúva, fes testamento, sob o Pio declarou que o seo corpo fosse sepultado no Consistório do Santíssimo Sacramento desta matris e amortalhada com o hábito de São Francisco e o mais sobre o seo enterro deixava a disposição de seo testamenteiro. Declarou mais que se deixe para sua Alma huma capella de missas”. Uma capela de missas corresponderia a cinquenta missas, que poderia ser feita por vários sacerdotes em várias capelas ao mesmo tempo ou no decorrer dos dias.  Considerava-se ainda de corpo presente as missas dentro do prazo de sete dias. Infelizmente não consegui a tabela de preços das ditas missas, mas variava muito quando era apenas uma missa, quando era encomendada por testamento, breves ou longas, com vários padres ou um único padre, se esse usaria ou não capa pluvial (asperges). O custo poderia ser muito alto caso o velório exigisse muitas velas (alugadas ou compradas), tocheiros, castiçais, aluguel de esquife, músicos,  incenso, perfume como alfazema, mortalha, galões, tapetes, decoração da igreja, se o enterro fosse diurno ou noturno o que era bem comum na época, enfim, toda uma sorte de paramentos e aparatos com seus devidos custos e necessidades, afinal tudo isso era uma garantia extra para o outro mundo,  desta forma era um investimento para a eternidade.  

Continuando a lista dos ilustres falecidos, consta  o falecimento do pároco local o Padre CAMILLO JOSE DE MORAES LELLIS, ocorrido em 09 de julho de 1858, aos oitenta anos, natural de Nazaré, de moléstia interna, fez testamento, no qual declarou quanto ao Pio: “Que seo corpo fofse amortalhado nas vestes sacerdotais, sepultado dentro desta matris e que difsessem mifsas de corpo presente nos dias segundo, terceiro e sétimo e que seo testamenteiro fisefse o enterro e oficio por sua alma conforme sua vontade, e que se dicefse huma capella de mifsas por sua alma com brevidade; declarou que deixava cem mil réis para repartir com os pobres mais necefsitados desta matris,  afsin mais cem mil réis para os pobres da villa de Atibaia, afsim mais cem mil reis para os pobres da Freguesia de Santa Ifigênia, afsin mais cem mil réis com os pobres de Bragança. Declarou mais que deixava por esmola a Matris desta Freguesia duzentos mil réis, como também hum cálix com seus préstimos, pedra de ara, alfaias e paramentos de celebrar missas.  Declarou mais que deixa por esmollas a hum mineiro por nome Manoel a quantia de trezentos mil réis e bem afsim mais a hum rapás por nome Amaro hum pedaço de terreno a quantia de quinhentos mil réis, e nada mais declarou quanto ao Pio”. O corpo foi amortalhado nas vestes sacerdotais e acompanhado solenemente por três sacerdotes ficando em depóstio na Matris, no dia seguinte se fez o oficio de Mifsas pela sua alma e jas sepultado dentro desta matris. Apesar de todas as reformas da matriz, seu corpo continua no local, no chão abaixo do arco, encimado por uma lápide negra. 

As  mudanças eram evidentes, tanto que, ao morrer o ilustre e rico cidadão Domingos de Oliveira Leme, aos oitenta anos, em 28 de novembro de 1859, e ser  envolto no hábito de São Francisco  ele foi sepultado no cemitério da matriz e não em seu interior como vários ilustres amigos seus que morreram anteriormente.  Assim também percebe-se a simplificação dos óbitos, tanto que em 27 de janeiro de 1890 falece o ilustre cidadão o capitão Thomaz Gonçalves Barbosa Cunha, aos oitenta anos, sepultado vestido de branco no cemitério local. Com certeza houveram pompas políticas entre outras, porém o morrer nesta época já estava bem mais simples e menos documentado. A morte deixava de ser tão cerimoniosa, pomposa e teatral como antes. Eram outros tempos, novas visões de mundo que estabeleciam novas relações entre vivos e mortos.

Encerra-se aqui um trecho da história dos óbitos de Piracaia, porém deixo um leque de opções de estudos antropológicos, sociais e históricos para próximos interessados em analisar e aprofundar nestes preciosos registros e conseguir  saber mais sobre o que dizem esses mortos que avivam nossa história.  A eles desejo que descansem em Paz ! Porém, nos deixaram o bom exemplo da meditação de São Francisco com a caveira, ou seja, por mais importantes que foram e aqui estiveram, todos se foram, o branco, o negro, o escravo, o liberto, o rico e o pobre. A morte igualou a todos, apesar dos diferentes panos, pompas e mortalhas, retornaram ao pó, mostrando que o tempo é curto, a vida é breve e a morte é certa ! 

O LOCAL DA PESQUISA:  PIRACAIA completa 200 anos este ano e situa-se no Estado de São Paulo-Brasil, possui área territorial de 395km², terreno de montanhas com altitude de 830 metros e uma população estimada em 26 mil habitantes.  A origem do nome “PIRACAIA” é guarani, o seu significado é “cardume de peixes”. Antiga Santo Antonio da Cachoeira, foi fundada à então Freguesia de Nazaré, a margem esquerda do Rio Cachoeira, em território que pertencia ao município de Atibaia. Sua fundação data de 16 de junho de 1817, quando dona Leonor de Oliveira Franco fez a doação do terreno e mandou construir por sua própria conta uma pequena ermida sob a invocação de Santo Antonio. O rápido desenvolvimento da povoação culminou na sua elevação a freguesia, por lei provincial de 05/3/1850. Mais tarde, em 24/3/1859, pela Lei nº 80, passou a categoria de município e em 25/8/1892 passou a categoria de comarca. O município passou a chamar-se Piracaia, pela Lei nº 997 de 20/3/1906.  A Igreja Matriz de Piracaia tornou-se Curato em 02/9/1830. A antiga igreja foi demolida após o adiantado das obras da nova matriz iniciada em 1884 que durou até 1891 e permanece até os dias atuais, sofrendo diversas reformas com o passar dos anos.  Em 1913, realizaram as obras de mudança da torre sineira, que era ao lado, para o centro da fachada.  Em 1933 realizou as obras de troca do assoalho de madeira por ladrilhos de cerâmica, selando em definitivo os túmulos antigos.  Na década de 1950 realizou as obras de pintura de todos os quadros internos, teto e paredes, pelo lituano Antonas Navickas, pintando todos os papas no teto da nave principal, sendo hoje o grande patrimônio da cidade, restaurado ano passado pelo artista local Wagner Piracaia.

Bibliografia

Almeida, Antonio Ferreira –  Histórias do Município e Comarca de Piracaia, Tipographia Almeida – Bragança, 1912.
Neto, João Cabral de Mello – Morte e Vida Severina (1955) – Nucleo de Educação a Distância – Universidade da Amazônia – Belém Pará – 2017 – pag. 12 e 13.
Reis, João José – A Morte é uma Festa  –  Ritos Fúnebres e Revolta Popular no Brasil do Século XIX – Companhia das Letras  – São Paulo – 1991 –  6ª reimpressão – 2012. 

Livros de óbitos da Paróquia de Santo Antonio da Cachoeira – Piracaia – acesso 2017 – disponíveis em https://familysearch.org/search/image/index?owc=M5JT-92Q%3A372013801%2C371871902%3Fcc%3D2177299

* O autor formou-se em 1994, em História pela Faculdade de Ciências e Letras da Fundação de Ensino Superior de Bragança Paulista.   Durante os módulos científicos da Pós Graduação   (lato-sensu) na mesma faculdade desenvolveu a Pesquisa intitulada “Picando fumo”, um estudo sobre a formação e costumes caipiras na região bragantina, publicada no Volume 94, nº 4/2000 da revista Cultura Vozes. Membro da Associação Brasileira de Folclore e Comissão Paulista de Folclore. Autor dos livros:  Histórias do Arco da Velha dedicado as assombrações e mitos na região; de “São Gonçalo um santo violeiro ou um violeiro santo?” (2009/2010 – co-autoria Lilian Vogel), João Belisário – o Lampião do Sul de Minas (2016).  Em 2008 foi agraciado com a Comenda Governador Pedro de Toledo, pelos relevantes serviços prestados a preservação histórica e divulgação da Revolução Constitucionalista de 1932 no Estado de São Paulo. Publicou nesta revista Brasil-Europa nº 128 – ”A Quaresma na região Entre Serras e Águas e o Canto da Verônica”(2010:6) e “Culto fálico sobrevive e ganha força em Amarante – Portugal” (138/15) entre outros.

Fotos: O antingo cemitério1 e 2,  saída da missa –   crédito:  ACERVO TETÊ BRANDÃO. 

Ilustração – S. Francisco Meditando – obra atribuída a Caravaggio. 

Indicação bibliográfica para citações e referências:
Cassalho, Valter. „O que dizem os mortos de Piracaia“. Revista Brasil-Europa: Correspondência Euro-Brasileira 169/20 (2017:5).http://revista.brasil-europa.eu/169/Valter_Cassalho_Mortos_de_Piracaia.html

créditos: Valter Cassalho

Revista Brasil-Europa – Correspondência Euro-Brasileira 

© 1989 by ISMPS e.V. © Internet-edição 1998 e anos seguintes © 2017 by ISMPS e.V. 
ISSN 1866-203X – urn:nbn:de:0161-2008020501

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Organização de Estudos de Processos Culturais em Relações Internacionais (ND 1968)
Instituto de Estudos da Cultura Musical do Espaço de Língua Portuguesa (ISMPS 1985)
reconhecido de utilidade pública na República Federal da Alemanha

Editor: Professor Dr. A.A. Bispo, Universität zu Köln
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